EUA levantam sanções ao gasóleo russo após telefonema Trump-Putin; Zelensky fala em «fraqueza»
A 9 de outubro, o Presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou um acordo com Vladimir Putin para o fornecimento de 300 mil a 3 milhões de toneladas de gasóleo russo aos mercados norte-americano e mundial, com o objetivo declarado de baixar os preços. O Tesouro norte-americano emitiu de imediato uma licença temporária que autoriza essas entregas até 7 de abril de 2027. O Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, qualificou a decisão como «fraqueza óbvia que favorece a Rússia». A 11 de outubro, Trump anunciou um «cessar-fogo energético», que Zelensky disse desconhecer; no dia seguinte, em Varsóvia e no Conselho de Negócios Estrangeiros da UE em Bruxelas, Zelensky e aliados europeus criticaram o acordo e pediram mais sanções contra Moscovo.
Pontos principais
- Trump e Putin acordaram, em 9 de outubro, 300 mil a 3 milhões de toneladas de gasóleo russo, com o Tesouro dos EUA a emitir licença temporária até 7 de abril de 2027.
- Zelensky classificou o levantamento das sanções como «fraqueza óbvia que joga a favor da Rússia» e disse que Trump negociava com Putin durante conversações EUA-Ucrânia em Miami.
- Trump respondeu que «é hora de a Ucrânia escolher um novo Presidente» e acusou Zelensky de poder terminar a guerra e não o fazer.
- A 11 de outubro, Trump anunciou um «cessar-fogo energético»; Zelensky disse que a notícia era «surpresa» e que a Rússia violou o acordo em poucas horas com um ataque a uma centrais em Kharkiv.
- Zelensky afirmou que os volumes propostos (300 mil a 500 mil toneladas por mês) são insignificantes face ao consumo mundial de cerca de 120 milhões de toneladas por mês.
- O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, e a Alta Representante da UE, Kaja Kallas, denunciaram o acordo como contrário aos esforços aliados para isolar Moscovo.
- A 12 de outubro, os ministros dos Negócios Estrangeiros da UE aprovaram o maior pacote de sanções de sempre contra a Rússia, com 1.646 entradas.
Porque é importante
O levantamento temporário de sanções sobre o gasóleo russo dá a Moscovo receitas adicionais num momento de guerra e surge depois de Washington ter pressionado Kiev, e não Moscovo, a ceder. A resposta pessoal de Trump a Zelensky e o anúncio paralelo de um «cessar-fogo energético» não cumprido expõem uma fractura crescente entre os Estados Unidos, a Ucrânia e vários aliados europeus. Em simultâneo, os volumes em causa são pequenos face ao consumo mundial, o que levanta dúvidas sobre o verdadeiro objetivo político do acordo, segundo Kiev e comentadores.
O que aconteceu
A 9 de outubro, o Presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou ter tido uma conversa telefónica «extremamente bem-sucedida» com o Presidente russo, Vladimir Putin, e ter acordado o fornecimento de 300 mil a 3 milhões de toneladas de gasóleo russo aos mercados norte-americano e mundial. O objetivo declarado é reduzir os preços dos combustíveis. Por instrução de Trump, o Departamento do Tesouro emitiu imediatamente uma licença geral temporária que autoriza o envio, válida até 7 de abril de 2027. O Kremlin, que em julho de 2026 tinha proibido as exportações de gasóleo em resposta aos ataques ucranianos às refinarias russas, levantou essa proibição mais cedo do que o previsto. De acordo com a Axios, a decisão de Trump surgiu depois de Kiev ter ignorado cerca de seis apelos norte-americanos para parar os ataques a refinarias russas. Na noite de 9 de outubro, o Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, qualificou a decisão como «fraca» e disse que Trump estava a negociar com Putin enquanto decorriam conversações entre EUA e Ucrânia em Miami; mais tarde descreveu o levantamento de sanções como «fraqueza óbvia que joga a favor da Rússia». Trump respondeu no dia seguinte dizendo que «é hora de a Ucrânia escolher um novo Presidente» e acusando Zelensky de poder terminar a guerra e de não o fazer. A 11 de outubro, Trump anunciou, em Truth Social, um «cessar-fogo energético», que disse ter sido acordado por ambas as partes; Zelensky afirmou que a novidade lhe chegou de surpresa, mas mostrou abertura a tal passo se Moscovo o concretizar; horas depois, segundo Kiev, a Rússia atingiu centrais em Kharkiv. A 12 de outubro, no Fórum de Segurança de Varsóvia, Zelensky afirmou que os volumes mensais de 300 a 500 mil toneladas são insignificantes face ao consumo mundial de cerca de 120 milhões de toneladas por mês e sugeriu que os EUA deveriam ter feito o acordo com a Ucrânia, que «influencia o movimento de navios russos» e «determina se as refinarias russas operam».
Como o descrevem as fontes ucranianas
As fontes ucranianas apresentam o acordo como uma concessão unilateral a Moscovo feita à margem de Kiev. Zelensky insiste que se trata de «fraqueza óbvia» que favorece a Rússia e realça o contraste entre Trump a negociar com Putin em Miami e a sua equipa em conversações com os EUA. As mesmas fontes sublinham a dimensão pessoal do conflito: o convite de Trump a «escolher um novo Presidente», a resposta do ministro dos Negócios Estrangeiros Andriy Sybiha de que «o povo ucraniano apoia Zelensky» e a oferta de Zelensky de realizar eleições se houver um cessar-fogo de 60 dias. A cobertura ucraniana insiste ainda que os ataques a refinarias russas são uma resposta aos ataques russos prolongados à infraestrutura energética da Ucrânia e que a Rússia violou o cessar-fogo em poucas horas.
Como o descrevem as fontes internacionais
A comunicação social internacional (CNN, agências europeias, responsáveis canadianos e da UE) apresenta o acordo como a subordinação dos interesses energéticos norte-americanos à estratégia ucraniana de pressionar a Rússia. Analistas citados pela CNN duvidam que os volumes russos possam influenciar significativamente os preços do gasóleo, tendo em conta o défice interno de combustível e a capacidade reduzida de refinação na Rússia. O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, e a Alta Representante da UE, Kaja Kallas, denunciaram o acordo como contrário aos esforços aliados para isolar Moscovo; Kallas alertou ainda que um acordo limitado a refinarias beneficiaria a Rússia. Em paralelo, a minsitra dos Negócios Estrangeiros da Letónia, Baiba Braže, aconselhou a Europa a «olhar primeiro ao espelho», recordando a recente retirada de dois oligarcas russos das listas de sanções. O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, defendeu o acordo como estando «nos interesses dos americanos» e classificou as críticas europeias de «hipócritas».
Onde as versões divergem
Há três divergências principais entre as fontes. Primeiro, sobre os volumes: parte da cobertura descreve um intervalo total de 300 mil a 3 milhões de toneladas; outras fontes detalham 300 mil toneladas iniciais, 500 mil em novembro e mais 1 milhão depois. Segundo, sobre o impacto nos preços: Trump e a sua administração garantem que o acordo reduzirá os preços, enquanto analistas citados pela CNN e o próprio Zelensky consideram que o efeito será marginal, dada a reduzida quota russa no consumo mundial. Terceiro, sobre o cumprimento do cessar-fogo: Trump afirma que ambos os lados concordaram e que entrou em vigor a 11 de outubro; Zelensky diz que soube pela comunicação social e que a Rússia o violou em poucas horas; o Kremlin recusou comentar; líderes da UE afirmam não ter visto provas de cumprimento russo.
Contexto
A Ucrânia tem atacado refinarias de petróleo russas em 2026, contribuindo para um défice de combustível e para a redução da capacidade de refinação na Rússia. Em resposta, Moscovo tinha proibido em julho de 2026 a exportação de gasóleo — proibição levantada antecipadamente após o telefonema Trump-Putin. Em setembro, Trump promulgou a lei Lindsey Graham de sanções contra a Rússia, cujas disposições principais entram em vigor a 18 de outubro, mas que preserva o direito presidencial a exceções. O Canadá, parceiro ativo da Ucrânia, já atribuiu mais de 7 mil milhões de dólares em ajuda militar desde o início da invasão em grande escala e施加u sanções a mais de 3.500 indivíduos e entidades. O cessar-fogo energético foi antecedido de contactos diplomáticos: a 22 de setembro, o Presidente francês Emmanuel Macron disse ter falado com Trump sobre a possibilidade desse acordo; a 23 de setembro, o secretário de Estado norte-americano Marco Rubio afirmou que Ucrânia e Rússia tinham interesse numa cessar-fogo sobre energia e cereais.