Washington e Kiev em desacordo sobre cessar-fogo e acordo do diesel russo após reunião na Florida
Uma reunião de seis horas em 9 de outubro na Florida, organizada pelos enviados especiais norte-americanos Steve Witkoff e Jared Kushner, juntou uma delegação ucraniana e representantes do Reino Unido, França, Alemanha, UE e NATO. No mesmo dia, Donald Trump anunciou ter chegado a acordo com Vladimir Putin para o fornecimento de combustível diesel russo aos mercados dos EUA e mundiais, decisão que o Presidente Volodymyr Zelensky qualificou de «injusta e desonesta». Os enviados norte-americanos pediram à Ucrânia que parasse os ataques a refinarias russas e transmitiram que Putin só regressará à mesa se receber a parte restante do Donbass ainda sob controlo ucraniano.
Pontos principais
- Em 9 de outubro, Witkoff e Kushner organizaram em Shell Bay (Florida) uma reunião de cerca de seis horas com uma delegação ucraniana e representantes do Reino Unido, França, Alemanha, UE e NATO.
- No mesmo dia, Trump anunciou ter acordado com Putin o fornecimento de 4,8 milhões de toneladas de diesel russo aos mercados dos EUA e mundiais.
- Zelensky classificou a decisão de Trump de suspender unilateralmente sanções ao diesel russo como «injusta e desonesta» e recusou parar os ataques a refinarias russas.
- Os enviados norte-americanos transmitiram aos ucranianos que Putin só regressará a negociações se receber os cerca de 11% do Donbass ainda sob controlo de Kiev.
- As negociações entre as delegações dos EUA e da Ucrânia em Miami terminaram antes do previsto.
- O Washington Post noticiou a 12–13 de outubro um plano de paz conjunto EUA–Europa com quatro componentes: financiamento da reconstrução (com o Banco Mundial e a BlackRock), garantias de segurança equivalentes ao artigo 5.º da NATO, integração económica e energética (incluindo um eventual gasoduto) e cessar-fogo ao longo da atual linha de contacto.
- Dmytro Lytvyn, conselheiro de comunicações de Zelensky, desvalorizou a publicação do plano como «publicidade americana» e não um formato conjunto EUA–Europa.
Porque é importante
Os eventos da Florida associam duas frentes interligadas: por um lado, a administração Trump procura um enquadramento de paz conjunto com a Europa que combine reconstrução, garantias de segurança, acordos energéticos e cessar-fogo ao longo da atual linha de contacto, exigindo concessões territoriais à Ucrânia; por outro, no mesmo dia da reunião, Trump anunciou um acordo com Putin que alivia sanções sobre o diesel russo, expondo a Ucrânia e os parceiros europeus a uma decisão já tomada. A contraproposta russa — receber os cerca de 11% do Donbass ainda controlados por Kiev — choca com a posição oficial ucraniana sobre integridade territorial e foi transmitida a Kiev como condição prévia para a retoma de negociações. As fissuras tornaram-se visíveis: a reunião terminou antes do previsto, os europeus foram apanhados de surpresa pelo anúncio do diesel, e os participantes ucranianos mostraram-se céticos em relação à abordagem norte-americana.
O que aconteceu
Em 9 de outubro, os enviados especiais do Presidente dos EUA Steve Witkoff e Jared Kushner organizaram no seu clube de golfe Shell Bay, nos arredores de Miami, uma reunião de cerca de seis horas com uma delegação ucraniana de três pessoas, conselheiros de segurança nacional do Reino Unido, França e Alemanha, e altos funcionários da UE e da NATO. Durante o encontro, Witkoff saiu momentaneamente para participar numa chamada telefónica entre Trump e Putin. Os enviados norte-americanos transmitiram a Kiev que Putin não está ainda pronto para negociar o fim da guerra e que só regressará à mesa se receber a parte restante do Donbass sob controlo ucraniano, estimada em cerca de 11%. Pediram também à Ucrânia que parasse de atacar refinarias russas — um pedido que a administração tinha feito repetidamente nos últimos meses — e informaram que Trump iria concluir um acordo sobre o diesel com a Rússia. Quando um participante ucraniano perguntou o que a Ucrânia receberia em troca, a resposta norte-americana foi que os EUA já fazem muito pela Ucrânia e não deveriam ter de negociar. Os norte-americanos recordaram o apoio militar e de inteligência prestado, o que alguns presentes interpretaram como ameaça velada. No mesmo dia, Trump anunciou ter chegado a acordo com Putin para fornecer 4,8 milhões de toneladas de diesel russo aos mercados norte-americano e mundial. Zelensky recusou parar os ataques a refinarias russas, classificou a decisão de Trump como «injusta e desonesta» e ridicularizou-a como «fraca». A reunião em Miami terminou antes do previsto. A 12 de outubro, o Washington Post publicou uma coluna de David Ignatius descrevendo um plano de paz conjunto EUA–Europa com quatro componentes: um mecanismo de financiamento da reconstrução da Ucrânia envolvendo o Banco Mundial e a BlackRock; garantias de segurança equivalentes ao artigo 5.º da NATO; integração económica e energética, incluindo um eventual gasoduto para petróleo e gás russos com lucros repartidos entre Ucrânia e Rússia; e um cessar-fogo ao longo da atual linha de contacto, deixando a Rússia com o controlo dos territórios ocupados. No domingo, o alto funcionário da UE Björn Seibert informou os embaixadores dos 27 Estados-membros de que os norte-americanos interagem mais com Moscovo do que admitem publicamente.
Onde as versões divergem
As fontes divergem em quatro pontos principais. Primeiro, sobre se Witkoff e Kushner ameaçaram cortar o acesso da Ucrânia à inteligência norte-americana em caso de ataques a refinarias russas: três fontes da Reuters, incluindo um participante, dizem que não houve ameaça explícita, enquanto o Financial Times, a Axios, a CNN e uma conta do Washington Post referem ameaças de suspender o intercâmbio de informações e/ou a aquisição de armas. Segundo, sobre a finalidade do acordo do diesel: Witkoff e Kushner apresentaram-o aos ucranianos como parte de um esforço para suavizar a posição de Moscovo e trazê-la de volta à mesa; o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, negou qualquer ligação ao processo de paz, classificando-o como mera cooperação mutuamente benéfica. Terceiro, sobre o «plano de paz» do Washington Post: o conselheiro presidencial Dmytro Lytvyn desvalorizou-o como «publicidade razoável» da parte norte-americana e negou que se trate de um formato conjunto EUA–Europa, enquanto a própria coluna e outras reportagens o descrevem como uma proposta conjunta em formação. Quarto, sobre o volume do acordo do diesel: Trump falou em 4,8 milhões de toneladas, enquanto a Reuters referiu mais de 2,25 milhões de barris para os mercados dos EUA e outros países.
Contexto
Trump e Putin mantiveram contacto direto durante este período, com Witkoff e Kushner a mediar entre Washington, Kiev e Moscovo. A administração norte-americana tinha pedido várias vezes à Ucrânia que parasse de atacar refinarias russas à medida que os preços do diesel subiam, e Witkoff e Kushner adiaram uma viagem planeada a Moscovo devido à incerteza sobre as posições de Ucrânia e Europa. A Ucrânia tem insistido na preservação da integridade territorial e rejeitado exigências de ceder território ainda sob o seu controlo, mas não exclui o congelamento do conflito ao longo da atual linha da frente como possível base para um acordo. A coluna de David Ignatius no Washington Post, publicada a 12–13 de outubro, desencadeou a reação do Gabinete do Presidente da Ucrânia a desvalorizar o conteúdo como «publicidade» norte-americana e não um formato conjunto.