Ucrânia: primeiro-ministro anuncia aperto no regime de dispensa de mobilização para travar abusos
O primeiro-ministro Serhiy Koretsky anunciou que o Governo vai finalizar esta semana alterações ao sistema de "reserva" (dispensa de mobilização) de trabalhadores de empresas consideradas críticas. Em entrevista à BBC News Ucrânia, Koretsky defendeu que o número de ucranianos com dispensa ou a evadir a mobilização ultrapassa o dos que servem, alertando que o ritmo de novas reservas é de dezenas de milhares por mês. As mudanças incluem um limite máximo de 85% de trabalhadores reserváveis (abaixo dos 100% atuais) e podem afetar mais de 900 empresas do complexo industrial de defesa.
Pontos principais
- Koretsky anunciou que o Conselho de Ministros finaliza esta semana novas regras para o sistema de reserva (dispensa) de mobilização
- O Governo propõe limitar a 85% (face aos atuais 100%) o máximo de trabalhadores que uma empresa considerada crítica pode reservar
- As alterações podem abranger mais de 900 empresas do complexo industrial de defesa
- O número de reservas e dispensas tem crescido dezenas de milhares por mês nos últimos 6 a 8 meses
- Koretsky aponta como exemplos de abuso uma subcontratada da Ukrenergo que reservou 100 dos 100 trabalhadores e uma empresa que produziria "condicionalmente dois drones por ano" reservando centenas
- O critério para empresa crítica deve ser o contributo para a capacidade de defesa e para o funcionamento vital do Estado, disse Koretsky
- O Governo justifica a reforma pela necessidade do Estado-Maior de reabastecer e rodar as formações, incluindo lesionados, desaparecidos e militares com longos períodos de serviço
Porque é importante
A reforma pode libertar pessoal para as Forças Armadas num momento em que o Estado-Maior afirma necessitar de militares para rotação e reabastecimento, e pode restringir o que o Governo descreve como abuso generalizado do estatuto de empresa crítica para proteger trabalhadores da mobilização. Ao impor um teto de 85%, o projeto afeta potencialmente mais de 900 empresas do complexo industrial de defesa e sinaliza como Kiev procura equilibrar as necessidades de defesa em tempo de guerra com a manutenção do funcionamento da economia.
O que aconteceu
O primeiro-ministro Serhiy Koretsky afirmou em entrevista à BBC News Ucrânia, publicada a 19 de outubro, que o Conselho de Ministros vai finalizar esta semana alterações ao sistema de "reserva" (dispensa de mobilização) de trabalhadores de empresas declaradas críticas. As mudanças visam combater abusos e tornar o sistema mais equitativo, reservando o mecanismo para empresas cujo trabalho contribua efetivamente para a capacidade de defesa ou para o funcionamento vital do Estado.
Koretsky afirmou que o número de pessoas com dispensa, reservadas ou a evadir a mobilização ultrapassa largamente o número dos que servem, e que o ritmo de novas reservas tem sido de dezenas de milhares por mês nos últimos 6 a 8 meses. Como exemplos concretos de abuso, apontou uma hipotética subcontratada da Ukrenergo que reservara 100 em 100 trabalhadores quando só 20 desempenhavam efetivamente o trabalho, e uma empresa que produziria "condicionalmente dois drones por ano" enquanto reserva centenas de funcionários.
O Governo está a considerar um limite máximo de 85% (em vez dos atuais 100%) para a proporção de trabalhadores que empresas com direito a reserva podem dispensar da mobilização. As alterações podem afetar mais de 900 empresas do complexo industrial de defesa. Koretsky garantiu que a percentagem de reserva para o setor da energia não será alterada antes do inverno mais difícil e que empresas verdadeiramente críticas continuarão a reservar trabalhadores como antes.
Koretsky justificou a reforma invocando a necessidade do Estado-Maior de reabastecer e rodar as formações, mencionando militares feridos que saem de serviço, desaparecidos, mortos, casos de abandono não autorizado (СЗЧ) e soldados com longos períodos de serviço que precisam de rotação.
Contexto
A lei de mobilização da Ucrânia permite a certas empresas consideradas críticas reservar os seus trabalhadores da conscrição; o regime tem sido criticado por abusos. Em 30 de maio de 2025, o Conselho de Ministros autorizou a reserva de todos os trabalhadores mobilizáveis de empresas críticas para as necessidades das Forças Armadas; em agosto de 2025, a mesma possibilidade foi estendida a empresas críticas em zonas da frente. Em maio, o Ministério da Economia anunciou que, a partir de julho, o salário médio mínimo para obter o estatuto de criticidade subiria de 21.618 para 25.941 hryvnias (três salários mínimos), e que a reserva só seria possível no vínculo de trabalho principal. Koretsky enquadrou como teste de criticidade a contribuição para a capacidade de defesa e a garantia do funcionamento vital do Estado, e não apenas os níveis salariais ou a ausência de dívidas fiscais.