Trump anuncia "cessar-fogo energético" entre Ucrânia e Rússia sem confirmação de Kiev ou Moscovo
A 11 de outubro, o Presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou um "cessar-fogo energético" entre a Ucrânia e a Rússia após uma chamada telefónica com Vladimir Putin, na qual também acordou a importação de 300 mil a 3 milhões de toneladas de gasóleo russo. Kiev e o Kremlin não confirmaram qualquer acordo formal, a Rússia continuou a bombardear infraestruturas energéticas ucranianas nas horas seguintes, e Trump apelou publicamente a que a Ucrânia eleja um novo Presidente.
Pontos principais
- Trump anunciou a 11 de outubro um "cessar-fogo energético" após uma chamada com Putin, sem confirmação formal de Kiev nem do Kremlin.
- A Rússia atacou a central térmica TEC-5 em Kharkiv e o povoado de Pisochyn poucas horas após o anúncio, provocando três mortos e mais de 20 feridos.
- Kiev afirmou ter tomado conhecimento do acordo através das redes sociais e declarou-se disponível para suspender ataques se a Rússia fizer o mesmo.
- A 9 de outubro, Trump acordou com Putin o envio de 300 mil a 3 milhões de toneladas de gasóleo russo para os mercados norte-americano e mundial, levantando parcialmente sanções.
- Trump apelou à Ucrânia para "escolher um novo presidente" e acusou Zelensky de bloquear um acordo de paz.
- A 12 de outubro, a CNN noticiou que os EUA ameaçaram suspender a partilha de informações e a venda de armas se Kiev não parar os ataques a refinarias russas.
- No mesmo dia 12 de outubro, os ministros dos Negócios Estrangeiros da UE aplicaram sanções a cerca de 1.600 pessoas e entidades ligadas ao complexo militar-industrial russo.
Porque é importante
O anúncio foi feito unilateralmente por Trump, sem que Kiev ou Moscovo confirmassem um acordo formal, deixando o seu estatuto legal e operacional pouco claro. A Rússia atingiu alvos energéticos ucranianos nas horas seguintes, minando a credibilidade do cessar-fogo. Em paralelo, a decisão norte-americana de importar gasóleo russo constitui um relaxamento significativo da pressão económica sobre Moscovo, enquanto Trump apelou publicamente à mudança de liderança em Kiev e ameaçou suspender informações e vendas de armas caso a Ucrânia não pare os ataques a refinarias russas, aprofundando a fractura transatlântica.
O que aconteceu
A 9 de outubro, Donald Trump falou por telefone com Vladimir Putin e acordou o envio de entre 300 mil e 3 milhões de toneladas de gasóleo russo para os mercados norte-americano e mundial, alegando querer reduzir os preços. A 11 de outubro, após uma nova conversa com Putin, Trump anunciou que tinha começado um "cessar-fogo energético" entre a Ucrânia e a Rússia, afirmando que ambos os lados tinham concordado e que o acordo implicava apenas a cessação de ataques a refinarias. Kiev disse ter tomado conhecimento do anúncio pelas redes sociais e não confirmou qualquer acordo formal; o Kremlin também não confirmou e afirmou que os "contactos" estavam em curso. Nas horas seguintes, a Rússia atacou a central térmica TEC-5 em Kharkiv e atingiu com um míssil o povoado de Pisochyn, na região de Kharkiv, matando três pessoas e ferindo mais de 20. A 12 de outubro, a CNN noticiou que os EUA tinham avisado Kiev e a Europa de que poderiam suspender a partilha de informações e a venda de armas caso a Ucrânia não parasse os ataques a infraestruturas energéticas russas. No mesmo dia, Zelensky afirmou que a Ucrânia tinha respeitado o cessar-fogo enquanto a Rússia continuava a atacar, e reiterou que a Ucrânia só pararia os ataques a refinarias russas se Moscovo parasse os seus ataques aéreos. Trump disse que iria "forçar" Zelensky e Putin a chegar a um acordo, acusou Zelensky de não querer a paz e apelou a que a Ucrânia elegesse um novo Presidente. Também afirmou que a Rússia e a Ucrânia tinham violado o cessar-fogo, tendo inicialmente dito que iria verificar a informação. No mesmo dia 12 de outubro, a UE aprovou sanções contra cerca de 1.600 pessoas e entidades ligadas ao complexo militar-industrial russo, mais de metade relacionadas com a produção de mísseis balísticos russos. Zelensky classificou a decisão norte-americana sobre o gasóleo como "fraca" e descreveu o acordo como um "presente" para Putin. Sete senadores norte-americanos, republicanos e democratas, afirmaram que a decisão viola a lei dos EUA, recordando que o Congresso proibiu em 2022 a importação de energia russa.
Como o descrevem as fontes ucranianas
A comunicação social ucraniana apresenta o cessar-fogo energético e o acordo sobre o gasóleo como concessões prejudiciais a Moscovo e como pressão perigosa sobre Kiev. As matérias sublinham que a Ucrânia não foi consultada, que a Rússia violou o cessar-fogo nas horas seguintes e que a assimetria do acordo — que abrange apenas refinarias — desfavorece fortemente a Ucrânia, que tem apenas uma refinaria a funcionar abaixo da capacidade e repetidamente atacada. Os comentadores ucranianos alertam para os riscos de suspensão da partilha de informações norte-americanas, do fim do programa de aquisição de armas dos EUA pela Ucrânia e de uma eventual interrupção do acesso ao Starlink, bem como para a necessidade de apoio europeu firme. Várias peças destacam o apelo de Trump à escolha de um novo Presidente como ingerência na escolha democrática da Ucrânia.
Onde as versões divergem
As fontes divergem sobre três pontos principais. Primeiro, quanto à existência do próprio cessar-fogo: Trump afirmou que ambos os lados concordaram, mas nem Kiev nem o Kremlin confirmaram um acordo formal. Segundo, quanto à responsabilidade pela ausência de um acordo de paz: Trump acusou Zelensky de não querer negociar e disse que Putin está mais interessado num acordo; comentadores e responsáveis ucranianos responderam que a Ucrânia tem repetidamente proposto cessar-fogos enquanto a Rússia os tem recusado. Terceiro, quanto a violações do cessar-fogo: Trump afirmou que houve violações dos dois lados, enquanto fontes ucranianas reportaram que a Ucrânia o respeitou e que a Rússia continuou sozinha os ataques a infraestruturas energéticas.