Ex-mulher de ex-ministro ucraniano viveu em apartamento de luxo não declarado em Genebra
Jornalistas de investigação ucranianos revelaram que a ex-mulher do ex-ministro da Energia e da Justiça Herman Halushchenko viveu com os filhos, ao longo de 2025, num luxuoso apartamento arrendado em Genebra, com 220 m² e renda anual de cerca de 4,5 milhões de grívnias (≈9 000 dólares por mês). A Agência Nacional de Prevenção da Corrupção (NAZK) concluiu que Halushchenko ocultou mais de 55,5 milhões de grívnias na declaração patrimonial entregue aquando da demissão, incluindo a renda suíça que não declarou e de cuja existência afirmou só ter tido conhecimento em 2026, através do processo criminal do caso 'Midas'.
Pontos principais
- Ex-mulher e filhos de Halushchenko viveram em 2025 num apartamento de 220 m² em Quai Gustave-Ador, Genebra, distrito de Eaux-Vives.
- Renda anual superior a 85 000 francos suíços, equivalente a cerca de 4,5 milhões de grívnias ou ≈9 000 dólares por mês.
- NAZK concluiu que ocultou mais de 55,5 milhões de grívnias na declaração patrimonial — configuração de informação declarada falsa.
- Halushchenko afirmou à NAZK que desconhecia a renda e só a soube em 2026 pelos autos do caso 'Midas'; a ex-mulher confirmou a estadia em 2025 mas não apresentou cópia do contrato.
- Filho Maksym estuda desde 2022 no colégio privado suíço College Alpin Beau Soleil, com custos anuais até 200 000 dólares.
- Jornalistas estimam que, ao ritmo de 2025, a família poderá ter gasto até 20 milhões de grívnias em renda em Genebra entre 2023 e 2026.
- Halushchenko foi detido em 15 de fevereiro de 2026 ao tentar cruzar a fronteira e é um dos principais suspeitos do caso 'Midas' do NABU, por branqueamento de capitais e participação em organização criminosa.
Porque é importante
O caso documenta o estilo de vida de um antigo alto responsável ucraniano em guerra, quando o país depende de ajuda internacional, e mostra que a NAZK, a agência anticorrupção do Estado, concluiu formalmente que foram ocultados mais de 55,5 milhões de grívnias na declaração de património. Enquadra-se no processo 'Midas' do NABU, no qual Halushchenko é um dos principais suspeitos por branqueamento de capitais e participação numa organização criminosa, e associa a família a gestores com ligações a estruturas offshore (Paradise Papers) e a uma empresa envolvida noutra investigação do NABU sobre sobrefaturação de obras rodoviárias em Odessa.
O que aconteceu
De acordo com uma investigação jornalística da equipa 'Schemes' da Rádio Svoboda e divulgada por vários meios ucranianos, a ex-mulher de Herman Halushchenko, Olha Bohdanova, viveu com os filhos durante todo o ano de 2025 num apartamento arrendado de 220 metros quadrados na Quai Gustave-Ador, junto ao lago de Genebra, num edifício histórico do distrito de prestígio de Eaux-Vives. A renda anual do imóvel excedeu 85 000 francos suíços, cerca de 4,5 milhões de grívnias ou aproximadamente 9 000 dólares por mês, segundo a escritura predial de Genebra, que atribui o edifício e o terreno a Georges e Pierre Nosari. Os jornalistas identificaram também despesas com o colégio privado suíço College Alpin Beau Soleil, frequentado desde 2022 pelo filho Maksym, e localizaram perto da residência a empresa de arquitetura Bogdanova Architects (B.A.G. Sarl), registada em Genebra em fevereiro de 2023, cujos gestores apresentam, segundo a investigação, ligações a estruturas offshore e à empresa Comatrans SA, envolvida noutro processo do NABU. A NAZK realizou, a pedido da presidente da comissão anticorrupção da Verkhovna Rada, Anastasiia Radina, uma verificação completa da declaração de Halushchenko relativa ao período entre o início de 2025 e 19 de novembro de 2025, dia em que a Rada o demitiu do cargo de ministro da Justiça no contexto do escândalo de corrupção 'Midas'. A agência concluiu que o antigo ministro ocultou informações num valor superior a 55,5 milhões de grívnias, o que se enquadra nos sinais de declaração de informação falsa. Halushchenko declarou à NAZK que desconhecia a renda suíça e que só teve conhecimento dela em 2026, através dos autos do processo criminal; Olha Bohdanova confirmou que a família viveu no apartamento em 2025 com base num contrato de arrendamento, mas não entregou cópia do mesmo. O antigo ministro foi detido em 15 de fevereiro de 2026 ao tentar atravessar a fronteira e é formalmente suspeito de branqueamento de capitais e de participação numa organização criminosa no caso 'Midas', imputações que contesta.
Como o descrevem as fontes ucranianas
Os sete meios que divulgaram a investigação são ucranianos, com destaque para o projeto 'Schemes' da Rádio Svoboda, e enquadram o caso como uma investigação interna de responsabilização e combate à corrupção. A cobertura destaca atores institucionais ucranianos — a NAZK, a presidente da comissão anticorrupção da Verkhovna Rada Anastasiia Radina e o processo 'Midas' do NABU — e sublinha o desfasamento entre o património declarado e o estilo de vida da família na Suíça como indício de ocultação. O caso é relacionado com temas anticorrupção mais amplos, incluindo a demissão de Halushchenko como ministro da Justiça e a sua posterior detenção.
Onde as versões divergem
Halushchenko declarou à NAKZ ter-se divorciado em 2022 e desconhecer a renda em Genebra, posição parcialmente confirmada por Olha Bohdanova, que confirmou à agência a estadia da família em 2025 ao abrigo de um contrato de arrendamento (sem entregar cópia). Já um procurador do SAPO sugeriu em tribunal que o divórcio terá sido meramente formal, e os jornalistas citam avaliações deixadas por Bohdanova no Google Maps em 2023 e 2024 em estabelecimentos próximos do edifício como indício de uma presença familiar anterior a 2025. Subsiste, portanto, um conflito entre a alegada ignorância de Halushchenko e o conjunto de provas reunido pelos investigadores sobre uma presença prolongada da família no imóvel.
Contexto
Herman Halushchenko foi ministro da Energia da Ucrânia entre 2021 e julho de 2025 e, em seguida, ministro da Justiça até à sua demissão pela Verkhovna Rada em 19 de novembro de 2025. É um dos principais suspeitos do caso 'Midas' do NABU/SAPO e foi detido em 15 de fevereiro de 2026 ao tentar atravessar a fronteira estatal, acusado de branqueamento de capitais e participação numa organização criminosa, acusação que rejeita. Segundo as suas declarações à NAZK, divorciou-se de Olha Bohdanova no outono de 2022; um quarto filho do casal nasceu na Suíça em 2023. Em fevereiro de 2023, Bohdanova registou em Genebra uma empresa de arquitetura cujos gestores foram associados, pelos jornalistas, a estruturas offshore (Paradise Papers) e à empresa Comatrans SA, mencionada numa investigação do NABU sobre a sobrefaturação de obras rodoviárias em Odessa. O filho Maksym frequenta desde 2022 o dispendioso colégio privado suíço College Alpin Beau Soleil.