Presidente da Coreia do Sul acusa Ucrânia de violar acordo ao anunciar transferência de prisioneiros norte-coreanos
O presidente da Coreia do Sul, Lee Jae-myung, acusou publicamente a Ucrânia de ter violado um acordo de confidencialidade ao anunciar, durante o discurso de Volodymyr Zelensky na Assembleia Geral da ONU em 23 de setembro, que dois soldados norte-coreanos capturados tinham sido transferidos para Seul. Foi a primeira confirmação oficial da transferência por parte sul-coreana. O Gabinete do Presidente da Ucrânia e um assessor de Zelensky negam que tal acordo alguma vez tenha existido, enquanto outra fonte ucraniana afirma que sim. A divergência abriu a primeira fricção pública no diálogo Kyiv-Seul sobre prisioneiros norte-coreanos e motivou críticas da oposição sul-coreana a Lee.
Pontos principais
- Lee Jae-myung publicou a acusação na rede social X na quinta-feira, dia seguinte ao discurso de Zelensky na Assembleia Geral da ONU em 23 de setembro.
- Lee classificou a divulgação como «cruel e irresponsável» e afirmou que Seul e Kyiv tinham acordado manter a transferência confidencial.
- Foi a primeira confirmação oficial da transferência por Seul; até então, o governo sul-coreano recusava confirmar a chegada dos prisioneiros.
- Os dois prisioneiros são um norte-coreano de 21 anos chamado Pek e outro de 26 anos chamado Ri, capturados por forças especiais ucranianas na região russa de Kursk em janeiro de 2025.
- Os dois prisioneiros assinaram pedidos por escrito para ir para a Coreia do Sul, noticiados em dezembro de 2025.
- Dmytro Lytvyn, assessor de comunicações de Zelensky, negou a existência de qualquer acordo de confidencialidade entre Kyiv e Seul.
- Oksana Torop, assessora de imprensa do embaixador Valeriy Zaluzhny, afirmou que o acordo de confidencialidade existiu e que as negociações faziam parte de um processo mais amplo de cooperação bilateral.
- A oposição sul-coreana, incluindo Ahn Cheol-soo do People Power Party, criticou Lee por a população ter sabido da transferência pelo discurso de Zelensky.
- Estimativas ucranianas e sul-coreanas apontam para cerca de 15.000 soldados norte-coreanos destacados na Rússia desde 2024, sobretudo na zona de Kursk.
Porque é importante
O diferendo expõe a primeira fricção pública entre Kyiv e Seul em torno de prisioneiros norte-coreanos e coloca em causa a confiança no canal bilateral sensível que tem sido construído. Lee Jae-myung justificou o silêncio pelos riscos para a vida dos próprios prisioneiros e das suas famílias na Coreia do Norte, pela segurança nacional e pela situação na Península. A controvérsia gerou ainda críticas internas na Coreia do Sul e tornou evidente a divergência dentro da própria elite ucraniana sobre se houve ou não acordo de confidencialidade.
O que aconteceu
Em 23 de setembro de 2026, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, anunciou no seu discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova Iorque, que a Ucrânia tinha transferido dois soldados norte-coreanos capturados para a Coreia do Sul. No dia seguinte, 24 de setembro, o presidente sul-coreano Lee Jae-myung publicou uma mensagem na rede social X a afirmar que a Ucrânia tinha violado um acordo de não divulgação ao tornar pública a transferência, classificando o acto como cruel e irresponsável e advertindo para os riscos diplomáticos e de segurança. Foi a primeira confirmação oficial da transferência por Seul, que até então se recusava a confirmar a chegada dos soldados por receio pela segurança dos prisioneiros e das suas famílias no Norte. O Gabinete do Presidente da Ucrânia respondeu que apenas foi comunicado o facto da transferência, sem detalhes operacionais, e que manter toda a operação em segredo seria estranho. O assessor de Zelensky, Dmytro Lytvyn, negou a existência de qualquer acordo de confidencialidade, mas a assessora de imprensa do embaixador Valeriy Zaluzhny, Oksana Torop, afirmou que esse acordo existiu.
Como o descrevem as fontes ucranianas
A comunicação social ucraniana destaca a posição do Gabinete do Presidente e do assessor Dmytro Lytvyn, que qualificam a Ucrânia como «um país aberto» e argumentam que apenas foi tornado público o facto da transferência, sem detalhes do processo. A mesma cobertura sublinha as declarações de Zelensky na ONU em que acusou o líder norte-coreano Kim Jong Un de usar os seus soldados «como moeda de troca», critica o envolvimento da Coreia do Norte na guerra e recorda que ambos os prisioneiros assinaram pedidos por escrito para ir para a Coreia do Sul.
Como o descrevem as fontes internacionais
A imprensa internacional trata o caso sobretudo como uma crise diplomática entre Seul e Kyiv e como um problema político interno para a administração de Lee Jae-myung, com relevo para a reacção do próprio presidente e para as críticas da oposição sul-coreana, incluindo o representante do People Power Party Ahn Cheol-soo, que questionou por que razão a população ficou a saber da transferência pelo discurso de Zelensky em vez de por um anúncio conjunto.
Onde as versões divergem
As fontes divergem em dois pontos centrais. Primeiro, sobre a existência de um acordo de não divulgação entre Kyiv e Seul: o presidente Lee Jae-myung e a assessora Oksana Torop dizem que existiu; o assessor Dmytro Lytvyn e o Gabinete do Presidente da Ucrânia negam-no. Em segundo lugar, sobre se Seul foi avisada com antecedência do anúncio: um funcionário anónimo da administração presidencial sul-coreana disse à agência Yonhap que Seul sabia da intenção de Zelensky de falar sobre a transferência mas que não lhe foi indicada a forma de divulgação, ao passo que a posição institucional de Seul, expressa por Lee, caracteriza a divulgação pública como uma quebra não consentida do acordo.
Contexto
Os dois prisioneiros, Pek, de 21 anos, e Ri, de 26, foram capturados por forças especiais e tropas aerotransportadas ucranianas na região russa de Kursk em janeiro de 2025, no que foi considerado o primeiro caso conhecido de soldados norte-coreanos capturados vivos na guerra. Em dezembro de 2025, ambos assinaram pedidos por escrito para serem transferidos para a Coreia do Sul, onde, por força da Constituição, os residentes do Norte são considerados cidadãos sul-coreanos. No final de maio de 2025, a Coreia do Sul pediu que estes prisioneiros não fossem incluídos nas listas de troca no formato «1000 por 1000», e em junho de 2026 o Ministério dos Negócios Estrangeiros sul-coreano manifestou disponibilidade para receber todos os militares norte-coreanos capturados pela Ucrânia que o desejassem, opondo-se ao seu retorno forçado à Rússia ou à Coreia do Norte. As estimativas disponíveis apontam para cerca de 15.000 soldados norte-coreanos destacados na Rússia desde 2024, sobretudo na zona fronteiriça de Kursk.