Lavrov compara resposta da Alemanha a incidente com drone em Leipzig ao “início de uma guerra real”
O ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, classificou a reação da Alemanha à tentativa de ataque com drone no aeroporto de Leipzig/Halle como o "início de uma guerra real", numa alusão ao encerramento de missões diplomáticas antes da Segunda Guerra Mundial. Em causa está a acusação alemã de que a Rússia estaria por trás do drone com explosivos encontrado perto de um An-124 ucraniano em agosto, que levou ao encerramento do último consulado russo em Bona e ao término do acordo sobre a "Casa da Rússia" em Berlim.
Pontos principais
- Na noite de 4–5 de agosto, um drone com explosivos e detonador foi encontrado junto a um An-124 ucraniano no aeroporto de Leipzig/Halle, importante hub logístico de ajuda ocidental à Ucrânia
- A 1 de setembro, o Governo alemão acusou oficialmente a Rússia de tentativa de ataque terrorista no aeroporto de Leipzig
- Lavrov descreveu a resposta alemã como o "início de uma guerra real" e comparou o encerramento de missões diplomáticas ao sucedido antes da Segunda Guerra Mundial
- A Alemanha encerrou o último consulado geral russo em Bona e revogou o acordo sobre a "Casa da Rússia" em Berlim; a Rússia retaliou com o encerramento de representações do Goethe-Institut
- Investigadores alemães identificaram dois suspeitos — um bielorrusso com passaporte russo e um nascido na Rússia com passaporte letão — e ADN do drone foi associado ao incêndio de 2024 num centro logístico da DHL em Leipzig
- O vice-presidente do Conselho de Segurança russo, Dmitry Medvedev, ameaçou com ataques a Berlim; o especialista Andreas Umland, do European Policy Institute em Kiev, afirmou que a guerra híbrida da Rússia contra a Alemanha está no limiar de uma ação militar convencional
Porque é importante
A declaração do chefe da diplomacia russa representa uma escalada retórica significativa, ao enquadrar as contramedidas consulares e culturais de Berlim como prelúdio de uma guerra. O episódio aprofunda o ciclo de deterioração nas relações Rússia-Alemanha, com encerramentos mútuos de consulados e instituições culturais e ameaças renovadas de figuras seniores de Moscovo. O alvo — uma aeronave de carga pesada ucraniana num hub de ajuda militar ocidental — liga o incidente diretamente à cadeia logística que sustenta a defesa da Ucrânia.
O que aconteceu
Na noite de 4 para 5 de agosto de 2025, um drone equipado com cerca de 600 gramas de explosivos militares e um detonador foi descoberto junto a um avião de carga An-124 Ruslan, de matrícula ucraniana, estacionado no aeroporto de Leipzig/Halle, na Alemanha. Imagens de videovigilância mostram que, cerca das 19:30, o drone embateu na asa da aeronave, ricocheteou e caiu ao chão, sem que o engenho explodisse — o detonador terá falhado ou sido arrancado no impacto. O aeroporto foi suspenso e, na mesma noite, um Boeing 757 de carga da DHL procedente de Marselha colidiu com um objeto desconhecido durante uma segunda tentativa de aproximação e aterrou de emergência em Hannover com danos ligeiros. O Ministério dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia confirmou que não houve vítimas e que as aeronaves da Antonov não sofreram danos. A 1 de setembro, o Governo federal alemão acusou oficialmente a Rússia de tentativa de ato terrorista no aeroporto de Leipzig. Em resposta, Berlim encerrou o último consulado geral russo no país, em Bona, e revogou o acordo sobre a "Casa da Rússia" em Berlim; a Rússia retaliou com o encerramento de representações do Goethe-Institut. Investigadores alemães identificaram dois suspeitos — um bielorrusso com passaporte russo, cujo ADN foi encontrado no drone e no recipiente de explosivos, e um homem nascido na Rússia com passaporte letão — e ADN recolhido no drone foi relacionado com o incêndio de 2024 num centro logístico da DHL em Leipzig. Funcionários norte-americanos citados pelo The Wall Street Journal e pela ABC News afirmaram que o drone apresenta características compatíveis com dispositivos usados pela inteligência militar russa.
Como o descrevem as fontes ucranianas
Toda a cobertura disponível vem de meios ucranianos, que apresentam o incidente de Leipzig como um ato de sabotagem russa contra uma infraestrutura que serve a logística de apoio à Ucrânia. Os relatos destacam a posição oficial de Kiev de que não houve vítimas nem danos nas aeronaves da Antonov e enquadram a retórica de Lavrov — em paralelo com as ameaças de Dmitry Medvedev contra Berlim e o apelo do propagandista Vladimir Solovyov para "restaurar a RDA" — como uma escalada coordenada de Moscovo. Andreas Umland, do European Policy Institute em Kiev, citado nestas peças, defende que a resposta alemã tem sido até agora maioritariamente simbólica, sem excluir medidas mais robustas, como a detenção de navios da frota fantasma russa ou o aumento do apoio a Kiev.
Onde as versões divergem
As fontes divergem quanto à carga do An-124 alvo: os meios alemães WDR, NDR e Süddeutsche Zeitung, citando um relatório policial confidencial, afirmam que a aeronave transportava munições recém-chegadas de França com destino a outro ponto; o Ministério do Interior alemão nega oficialmente a presença de armamento a bordo. Divergem também sobre a responsabilidade: as autoridades alemãs, funcionários norte-americanos ouvidos pelo The Wall Street Journal e pela ABC News e os investigadores alemães apontam para a Rússia e identificaram suspeitos com ligações bielorrussas e russas; Lavrov e outras vozes oficiais russas rejeitam a acusação e descrevem a resposta alemã como o início de uma guerra real.
Contexto
O aeroporto de Leipzig/Halle é utilizado desde 2022 como plataforma alternativa para o transporte de carga militar ocidental para a Ucrânia, incluindo por aeronaves pesadas ucranianas como o An-124. A Procuradoria Federal alemã investiga o episódio como um ataque a infraestruturas de transporte e logística do país. Investigadores alemães relacionaram vestígios de ADN encontrados no drone com o incêndio de 2024 num centro logístico da DHL em Leipzig. Funcionários norte-americanos afirmaram ao The Wall Street Journal e à ABC News que o engenho apresenta assinaturas compatíveis com dispositivos usados pela inteligência militar russa (ex-GRU).