Operação «Cartago»: buscas na Procuradoria-Geral da Ucrânia e demissão de suspeito
As autoridades anticorrupção da Ucrânia (NABU e SAP) anunciaram em 4 de setembro a operação «Cartago», que expôs uma alegada organização criminosa liderada por um funcionário da Procuradoria-Geral, acusada de proteger centros de chamadas fraudulentos e branquear mais de 30 milhões de UAH. Na noite de 5 de setembro, os detetives do NABU realizaram buscas nas instalações do procurador-geral Ruslan Kravchenko, da sua primeira-adjunta Maria Vdovychenko e de outros funcionários do OGP. Kravchenko negou qualquer envolvimento e ordenou a suspensão do funcionário suspeito, identificado pela comunicação social como Serhiy Kropyva, agora em prisão preventiva até 2 de novembro com caução de 120 milhões de UAH.
Pontos principais
- A 4 de setembro, o NABU e a SAP anunciaram a operação «Cartago» contra uma alegada organização criminosa liderada por um funcionário do escritório do procurador-geral.
- Por volta da meia-noite de 5 de setembro, os detetives do NABU efetuaram buscas nos gabinetes do procurador-geral Ruslan Kravchenko, da sua primeira-adjunta Maria Vdovychenko e de outros funcionários do OGP.
- Cinco suspeitos estão identificados, incluindo Serhiy Kropyva («Kanzler»), preso preventivamente pelo Tribunal Superior Anticorrupção até 2 de novembro, com caução alternativa de 120 milhões de UAH.
- O NABU estima mais de 20 milhões de UAH gastos em imóveis, joias e bens de valor, mais de 12 milhões em ativos (incluindo um imóvel nos Cárpatos) re registados em nomes de terceiros e mais de 10 milhões em contas bancárias de pessoas próximas.
- O OGP afirma que as conversas citadas na autorização das buscas se referem a assuntos domésticos e exige uma avaliação jurídica sobre o alegado acesso dos detetives a processos não relacionados.
- Kravchenko nega publicamente qualquer envolvimento, afirma que esteve sempre no trabalho e ordenou a suspensão do funcionário visado, auditorias e testes de polígrafo.
- As gravações publicadas pelo NABU incluem a figura «Chefe», descrita como ex-chefe do Serviço Fiscal — perfil compatível com Kravchenko, que, contudo, nunca foi formalmente indiciado.
Porque é importante
A operação atinge o coração do sistema de justiça ucraniano, investigando um alto funcionário da Procuradoria-Geral suspeito de proteger uma vasta rede de centros de chamadas fraudulentos. O caso pode determinar se o procurador-geral Ruslan Kravchenko se mantém no cargo, dado que os marcadores nas gravações do NABU correspondem à sua biografia. A operação expõe também a dimensão da economia criminosa dos centros de chamadas na Ucrânia — que lesa igualmente cidadãos da UE e do Reino Unido — e testa a independência institucional do NABU e da SAP face ao topo da hierarquia do Ministério Público.
O que aconteceu
A 4 de setembro, o Departamento Nacional Anticorrupção (NABU) e a Procuradoria Especializada Anticorrupção (SAP) anunciaram a operação «Cartago», alegando ter desarticulado uma organização criminosa criada em meados de 2025 por um chefe de uma divisão estrutural da Procuradoria-Geral da Ucrânia (OGP). Segundo a investigação, o grupo receberá sistematicamente subornos de centros de chamadas fraudulentos para não interferir nas suas atividades, que vitimam cidadãos ucranianos e estrangeiros. Cinco suspeitos foram identificados, indiciados pelos artigos 255.º (criação e chefia de organização criminosa) e 209.º (branqueamento) do Código Penal, com pena até 15 anos de prisão. Por volta da meia-noite de 5 de setembro, detetives do NABU efetuaram buscas nos gabinetes do procurador-geral Ruslan Kravchenko, da primeira-adjunta Maria Vdovychenko e de outros funcionários do OGP. A comunicação social identificou o líder da organização como Serhiy Kropyva («Kanzler»), vice-chefe do Departamento de Cooperação Internacional do OGP, detido na noite de 4 de setembro em Leópolis, alegadamente em direção à fronteira. O OGP confirmou as buscas, mas exigiu uma avaliação jurídica sobre a alegação de que os detetives acederam a materiais de outros processos — incluindo possíveis infrações de funcionários do NABU e da SAP. A 6 de setembro, o Tribunal Superior Anticorrupção ordenou a prisão preventiva de Kropyva até 2 de novembro, com caução alternativa de 120 milhões de UAH. Kravchenko rejeitou publicamente qualquer envolvimento, ordenou a suspensão do funcionário, auditorias internas e testes de polígrafo.
Como o descrevem as fontes ucranianas
Toda a informação disponível provém de fontes ucranianas, centradas em atores institucionais do país: NABU, SAP, OGP, Tribunal Superior Anticorrupção (VAKS), Serviço Fiscal, Gabinete do Presidente e facção «Servo do Povo». A cobertura detalhada inclui as negações de Kravchenko, a contestação das buscas pelo OGP (que argumenta que a autorização judicial citava apenas conversas sobre assuntos domésticos como «azulejo escuro», instalação de alarmes e sensores internos), bem como as estatísticas por ele apresentadas sobre a sua atividade no combate aos centros de chamadas. A imprensa destaca igualmente alegações da «Ukrainska Pravda» e da «ZN.UA» sobre o desaparecimento temporário de Kravchenko e uma possível troca de favores com o chefe da bancada parlamentar, Davyd Arakhamia — alegações que nenhum dos visados confirmou publicamente.
Onde as versões divergem
Quatro divergências principais emergem das fontes. Primeiro, o paradeiro de Kravchenko após o início da operação: a «Ukrainska Pravda» afirma que ele não foi localizado durante mais de 12 horas; a «ZN.UA» indica que esteve na clínica Dobrobut em Kiev; o OGP, o próprio Kravchenko e a rede hospitalar desmentem essa versão. Segundo, se Kravchenko é a figura «Chefe» nas gravações do NABU: o NABU não o nomeou nem o indiciou formalmente, mas os marcadores (ex-chefe do Serviço Fiscal, patronímico «Andriyovych») coincidem com a sua biografia — o que Kravchenko contesta. Terceiro, se as buscas excederam a autorização judicial: o OGP alega acesso a processos não relacionados (incluindo sobre possível conduta irregular do NABU e da SAP) e exige avaliação; o NABU não respondeu publicamente a esta crítica específica. Quarto, o valor total branqueado: a maioria das fontes indica mais de 30 milhões de UAH (20 milhões em bens, 12 milhões em imóveis nos Cárpatos, 10 milhões em contas), enquanto o processo de Kropyva refere 89,9 milhões de UAH ao longo de dois períodos distintos.
Contexto
O NABU e a SAP são as principais instituições anticorrupção da Ucrânia. A operação «Cartago» investiga alegações de que funcionários do OGP receberam subornos para proteger uma rede de centros de chamadas fraudulentos que lesam cidadãos ucranianos e estrangeiros. Ruslan Kravchenko foi chefe do Serviço Fiscal Estatal de dezembro de 2024 a junho de 2025, antes de ser nomeado procurador-geral — perfil que coincide com a figura «Chefe» das gravações do NABU. Segundo a investigação, cerca de 2 000 centros de chamadas fraudulentos podem operar na Ucrânia, protegidos por um sistema de pagamentos mensais distribuídos entre vários órgãos de segurança e de aplicação da lei.