Budanov revela à NYT contactos com o chefe do GRU russo e com Prigozhin e desaconselha cedência de território na Donetsk
Em entrevista ao The New York Times publicada a 4 de setembro de 2026, o chefe do Gabinete do Presidente da Ucrânia e da delegação de negociação com a Rússia, Kyrylo Budanov, revelou ter mantido durante anos contactos diretos com o chefe da inteligência militar russa (GRU), almirante Igor Kostyukov, e com o falecido fundador da Wagner, Yevgeny Prigozhin. Budanov aconselhou o presidente Volodymyr Zelensky a não aceitar compromissos sobre o Donbas que deem à Rússia o controlo formal de territórios que o seu exército não conseguiu tomar, e estimou que as condições para um cessar-fogo dificilmente surgirão antes da primavera de 2027.
Pontos principais
- Kyrylo Budanov chefiou o Gabinete do Presidente da Ucrânia desde o início de janeiro de 2026 e lidera a delegação ucraniana nas negociações com a Rússia.
- Em entrevista ao The New York Times publicada a 4 de setembro de 2026, afirmou ter mantido contactos frequentes com o chefe do GRU, almirante Igor Kostyukov.
- Os primeiros contactos com Kostyukov datam de 2022, mediados pela Turquia, sobre a abertura de corredores marítimos no Mar Negro para o transporte de cereais.
- Budanov disse ter comunicado regularmente com Yevgeny Prigozhin até ao motim da Wagner em 2023 e à morte do fundador num acidente aéreo.
- O diálogo com Kostyukov continuou mesmo após a incursão ucraniana no posto avançado do GRU na fábrica de cimento de Vovchansk em 2024, que causou perdas significativas às forças russas.
- Budanov aconselhou Zelensky a não ceder o Donbas, argumentando que isso daria à Rússia um prémio que o seu exército não conquistou no campo de batalha.
- Budanov afirmou que as negociações com a Rússia poderão retomar em setembro, mas que as condições para um cessar-fogo dificilmente aparecerão antes da primavera de 2027.
Porque é importante
A entrevista de Budanov ao New York Times é significativa porque é o próprio chefe da delegação negociadora ucraniana quem descreve, de forma pouco habitual e on-the-record, a arquitetura dos contactos paralelos com Moscovo. Ao revelar a existência e a continuidade do canal com o chefe do GRU, e ao apontar a abertura ao diálogo com a Wagner, o responsável expõe um processo negocial que decorre em vários níveis. Simultaneamente, ao desaconselhar qualquer cedência no Donbas, Budanov define publicamente o teto político de Kyiv nas negociações e condiciona o tipo de acordo que está disposto a subscrever.
O que aconteceu
Numa entrevista ao The New York Times publicada a 4 de setembro de 2026, Kyrylo Budanov — chefe do Gabinete do Presidente da Ucrânia e da delegação de Kiev nas negociações com a Rússia — revelou que, ao longo dos últimos anos, manteve contactos diretos com o chefe da inteligência militar russa (GRU), almirante Igor Kostyukov, e com o fundador da empresa militar privada Wagner, Yevgeny Prigozhin. Os primeiros contactos com Kostyukov aconteceram em 2022, por mediação da Turquia, para discutir a abertura de corredores marítimos no Mar Negro ao transporte de cereais. O diálogo continuou mesmo depois de a inteligência ucraniana ter infligido perdas significativas às forças de Kostyukov durante a operação de 2024 no posto avançado do GRU na fábrica de cimento de Vovchansk, tendo Budanov destacado que foram alcançados resultados concretos, sobretudo em questões relacionadas com prisioneiros de guerra. Os contactos com Prigozhin prolongaram-se até ao motim da Wagner em 2023 e à morte do fundador numa explosão a bordo de um avião particular. Na entrevista, Budanov descreveu-se como um oficial de informação militar para quem o diálogo com o adversário é parte do trabalho e afirmou que ambas as partes compreendem que têm de procurar uma solução, apesar de não poderem confiar plenamente uma na outra enquanto decorrem hostilidades. Recusou comprometer-se com qualquer cedência no Donbas que desse a Moscovo o controlo formal de territórios que o exército russo não conseguiu tomar no campo de batalha. Em entrevistas anteriores, a 28 de agosto, Budanov já tinha dito que a Rússia não pretende parar a guerra e que o seu fim não deve ser esperado durante o próximo inverno, embora tenha indicado que as negociações serão retomadas em breve.
Como o descrevem as fontes ucranianas
O conjunto de fontes disponíveis é integralmente composto por meios ucranianos (NV, Ukrinform, LIGA.net, Forbes Ukraine), que reproduzem a entrevista do New York Times e a enquadram a partir da posição oficial da delegação negociadora liderada por Budanov. Estes realçam sobretudo três elementos: a dimensão humana e prolongada do contacto com Kostyukov e Prigozhin, o aviso público de Budanov ao presidente Zelensky contra cedências no Donbas e a avaliação de que a Rússia não está disposta a parar a guerra no curto prazo, com a retoma das negociações prevista para setembro.
Como o descrevem as fontes internacionais
A difusão internacional da revelação é mediada quase em exclusivo pela entrevista original ao The New York Times, a 4 de setembro, e pela sua reprodução em fontes ucranianas. O material fornecido não inclui outro meio internacional com publicação autónoma que permita um enquadramento contrastante; a leitura predominante sublinha a existência de uma via de comunicação paralela e contínua entre o chefe da delegação negociadora ucraniana e as chefias militares russas, bem como a oposição pública de Budanov a qualquer fórmula que legalize ganhos territoriais obtidos apenas no terreno negocial.
Contexto
A primeira reunião trilateral Ucrânia-Rússia-EUA realizou-se a 23-24 de janeiro de 2026, então chefiada por Rustem Umerov como secretário do Conselho de Segurança Nacional e Defesa, com Budanov já integrado na delegação. Seguiu-se uma segunda ronda em Abu Dhabi a 4-5 de fevereiro de 2026, na qual Budanov procurou imprimir um novo tom às conversações. A essa altura, um rascunho de paz de 20 pontos tinha-se reduzido a duas questões por resolver: a administração da central nuclear de Zaporijia, ocupada pela Rússia, e o controlo da parte do Donbas ainda sob administração ucraniana. Os primeiros contactos de Budanov com Kostyukov remontam a 2022, mediados pela Turquia, e incidiram sobre a abertura de corredores marítimos para exportação de cereais; os contactos com Prigozhin cessaram com o motim da Wagner em 2023 e a morte do seu fundador. Budanov assumiu a chefia do Gabinete do Presidente no início de janeiro de 2026, tendo indicado que uma das principais razões para aceitar o cargo foi precisamente a possibilidade de conduzir as negociações com a Rússia.