Até 25 mil norte-coreanos trabalham em fábricas de drones na Rússia com vistos de estudante
Um relatório do Grupo Multilateral de Monitorização de Sanções, citado pela Bloomberg, indica que cerca de 25 mil cidadãos norte-coreanos trabalham em instalações russas de produção de drones, incluindo a zona económica especial de Alabuga, no Tartaristão. São introduzidos na Rússia com vistos de estudante para contornar sanções e a maioria dos salários — em média cerca de 7.500 dólares por ano — é confiscada por Pyongyang. O mesmo complexo tem recrutado jovens dos territórios ucranianos temporariamente ocupados pela Rússia.
Pontos principais
- Até 25 mil norte-coreanos trabalham na indústria de drones russa, incluindo na zona económica especial de Alabuga, no Tartaristão, onde são montados drones do tipo Shahed.
- Em 2025, a Rússia emitiu mais de 36.400 vistos a cidadãos da RPDC — quase o quádruplo do ano anterior —, dos quais 35.800 foram vistos de estudante.
- Cerca de 7.500 dólares por ano é o salário médio de um trabalhador norte-coreano na Rússia, valor cerca de cinco vezes superior ao que receberia na China.
- O regime de Pyongyang confisca a maior parte destes salários, por vezes mais do que o trabalhador efetivamente auferiu.
- Os trabalhadores estão ligados a 70–80 empresas norte-coreanas; até mil trabalham em instalações estratégicas, incluindo fábricas de armamento e estaleiros navais.
- O complexo de drones de Alabuga ocupa mais de 1.000 hectares e tem recrutado, desde agosto, jovens dos territórios ucranianos ocupados pela Rússia.
- O Grupo Multilateral de Monitorização de Sanções (MSMT), criado em 2024, reúne 11 Estados, incluindo EUA, Coreia do Sul e Japão.
Porque é importante
O esquema fornece à mão de obra industrial russa para um setor diretamente ligado aos ataques contra a Ucrânia (drones do tipo Shahed/Geran) e rende a Pyongyang moeda forte que financia programas nuclear e balístico proibidos por resoluções do Conselho de Segurança da ONU. O uso de milhares de vistos de estudante evidencia uma evasão de sanções em larga escala, com lacunas no controlo das exportações de mão de obra norte-coreana. A mesma infraestrutura, em Alabuga, está a recrutar jovens dos territórios ucranianos ocupados pela Rússia, ligando a exploração laboral à ocupação.
O que aconteceu
O Grupo Multilateral de Monitorização de Sanções, um grupo de 11 Estados que inclui os Estados Unidos, a Coreia do Sul e o Japão, divulgou um relatório citado pela Bloomberg sobre o papel crescente dos trabalhadores norte-coreanos na indústria de drones russa. O documento estima que até 25 mil cidadãos da RPDC estejam empregados em instalações de produção de drones, com destaque para a zona económica especial de Alabuga, no Tartaristão, onde são montados drones do tipo Shahed.
Estes trabalhadores são introduzidos na Rússia como estudantes, através de vistos de estudante, para contornar as sanções da ONU. Em 2025, a Rússia emitiu mais de 36.400 vistos a cidadãos norte-coreanos, quase quatro vezes mais do que no ano anterior, dos quais 35.800 foram vistos de estudante. O salário médio anual é de cerca de 7.500 dólares — cerca de cinco vezes o que um norte-coreano receberia na China —, mas o regime de Pyongyang confisca a maior parte, por vezes mais do que o trabalhador efetivamente ganhou.
Os trabalhadores estão associados a 70–80 empresas norte-coreanas. Até cerca de mil trabalham em instalações estrategicamente importantes, como fábricas de armamento, processamento de aço e construção naval. Reportagens da Bild, baseadas em imagens de satélite, indicam que a área de expansão do complexo de drones de Alabuga já ultrapassa os 1.000 hectares e que, desde agosto, os operadores do complexo têm recrutado jovens dos territórios ucranianos temporariamente ocupados pela Rússia para trabalhar nas instalações. Em 2025, segundo o relatório, os trabalhadores norte-coreanos no estrangeiro terão rendido ao regime de Kim Jong-un até 800 milhões de dólares.
Como o descrevem as fontes ucranianas
As cinco fontes fornecidas são ucranianas e enquadram a história como prova do aprofundamento da dependência da Rússia em relação à Coreia do Norte para sustentar o esforço de guerra e contornar sanções. A cobertura destaca o papel da inteligência militar ucraniana (HUR) e as declarações de Zelensky, sublinhando a dimensão bélica — produção de drones, transferências de tropas, entrega de mísseis balísticos — e os mecanismos de evasão de sanções usados por Pyongyang, como vistos de estudante e confisco de salários. Os artigos salientam ainda o custo humano e os riscos de segurança, incluindo o recrutamento de jovens dos territórios ocupados e o financiamento dos programas nuclear e balístico da RPDC.
Onde as versões divergem
Existem divergências entre as fontes sobre o anúncio feito em 8 de agosto pelo Presidente Zelensky de que a Coreia do Norte pretende enviar entre 30.000 e 50.000 militares para a Rússia para adquirir experiência de guerra moderna. Kim Yo Jong, irmã do líder norte-coreano, rejeitou essa avaliação, classificando-a como «infundada» e um «incidente encenado».
Há também discrepâncias quanto à escala da presença militar norte-coreana na Rússia: o HUR referiu, no outono de 2024, cerca de 12.000 militares (incluindo 500 oficiais) na região de Kursk; a sul-coreana Yonhap noticiou em novembro de 2025 cerca de 5.000 transferidos «para restauro de infraestruturas»; e um vice-chefe do HUR mencionou um contingente de 8.500 elementos (incluindo 400 operadores de drones) destacados na Rússia em agosto de 2026.
Contexto
O Grupo Multilateral de Monitorização de Sanções (MSMT) reúne 11 Estados, entre os quais os Estados Unidos, a Coreia do Sul e o Japão, e foi criado em 2024 depois de a Rússia ter bloqueado a renovação do mandato do Grupo de Peritos da ONU que, durante 15 anos, monitorizou as sanções contra a RPDC. A Rússia é o segundo país do mundo a acolher trabalhadores norte-coreanos no estrangeiro, atrás da China, com a maioria concentrada no Extremo Oriente russo (Vladivostok, Khabarovsk, Sakhalin) e alguns em Moscovo, São Petersburgo e Irkutsk.
O salário médio anual na Rússia ronda os 7.500 dólares, cerca de cinco vezes o que aufeririam na China, mas o regime de Pyongyang confisca a maior parte, por vezes mais do que o trabalhador efetivamente recebeu. As autoridades norte-coreanas controlam rigorosamente os movimentos e contactos dos trabalhadores para evitar fugas, e familiares de quem tenta escapar podem enfrentar repressões.
Quanto à vertente militar, o HUR reportou no outono de 2024 cerca de 12.000 efetivos norte-coreanos (incluindo 500 oficiais) na região russa de Kursk, após treino em polígonos russos orientais, e a Yonhap indicou em novembro de 2025 cerca de 5.000 militares adicionais transferidos «para restauro de infraestruturas». Segundo militares ucranianos, soldados norte-coreanos têm resistido à rendição, procurando resgatar corpos dos camaradas ou cometendo suicídio perante a ameaça de captura; a Ucrânia capturou dois soldados norte-coreanos, ambos com desejo declarado de viajar para a Coreia do Sul.